HERBERT VIANNA - VICTORIA





O COMPOSITOR REENCONTRA SUAS CANÇÕES

 
A ideia de Herbert Vianna lançar um disco solo reunindo suas composições que haviam sido gravadas somente por outros artistas surgiu por volta do ano 2000. Entretanto, o projeto seria deixado de lado em favor de um novo conjunto de canções gravadas com a participação de diversos músicos e produtores. Nascia “O Som do Sim”, o terceiro trabalho individual de Herbert. Porém, como o compositor acumulou um extenso material cedido à outras vozes, seria justo que, em algum momento, ele registrasse suas próprias interpretações dessas músicas. Em 2007, a ideia ressurgiu. Mas devido aos compromissos do cantor com Os Paralamas do Sucesso, as gravações só começaram três anos mais tarde. Herbert convidou o experiente Chico Neves para assumir a produção. Desde o início, o conceito era registrar as canções basicamente no esquema voz/ violão aproximando as músicas do momento da composição. Chico providenciou algumas intervenções sonoras como teclados, sintetizador, sitar e alguns efeitos. Além disso, sugeriu que Herbert adicionasse vocais de apoio e demais violões. Como esses companhamentos são sutis, o formato simples foi mantido. Sua voz está mais suave que nunca. O resultado é ótimo. Gravado no Estúdio 304, no Rio de Janeiro, o quarto álbum solo de Herbert Vianna foi batizado de “Victoria”. Este era o primeiro nome de Lucy, a saudosa esposa do músico e mãe de seus filhos. O repertório soma 20 músicas. Entre sucessos e canções pouco conhecidas, Herbert apresenta sua versão da história.


FAIXA A FAIXA


01 – Só Pra Te Mostrar
(Herbert Vianna)

Herbert Vianna compôs esta canção em 1992. Na época, Lucy estava grávida do primeiro filho do casal, Luca. A jornalista inglesa estava se sentindo insegura em relação à sua aparência devido ao estado avançado da gravidez. Sensível, Herbert respondeu com esta música cujo verso inicial sela o pacto de união e cumplicidade entre eles: “Não quero nada que não venha de nós dois”. No mesmo ano, Daniela Mercury gravou a faixa dividindo os vocais com Herbert. Em 1993, “Só Pra Te Mostrar” foi incluída na trilha sonora da novela Renascer e se tornou um grande sucesso. A nova versão do autor com violões, vocais de apoio e o simples, porém certeiro acompanhamento de Chico Neves, deixa exposta toda a beleza da letra e melodia. Uma das melhores composições de Herbert.



02 – Pense Bem
(Herbert Vianna)

Gravada em 1999 pela banda carioca de reggae Negril. Herbert não apenas apadrinhou e produziu o grupo em seu primeiro trabalho por uma grande gravadora como cedeu esta música para que eles a gravassem. A letra fala de um relacionamento que corre perigo de acabar pela desistência de uma das partes. Com um arranjo reggae, foi escolhida como o primeiro single do Negril. A versão gravada por Herbert revela como a canção era originalmente uma balada típica de sua obra.



03 – Junto Ao Mar
(Herbert Vianna)

Esta música foi feita especialmente para a banda Penélope, que era empresariada por Lucy Vianna. O grupo de Salvador gravou a canção em 2001 em seu segundo disco (“Buganvília”). Chegou a ser cogitada para fazer parte do álbum “Longo Caminho” dos Paralamas, mas foi deixada de lado. Herbert revisita esta sua delicada composição com um excelente dedilhado de violão e um acompanhamento vocal feito por ele próprio.



04 – Eu Não Sei Nada De Você
(Herbert Vianna)

Canção gravada anteriormente por Herbert Vianna em seu terceiro disco solo, “O Som do Sim” (2000). Na época, chamada apenas de “Eu Não Sei Nada”, contou com a participação da cantora gaúcha Luciana Pestana. (Nota: Herbert havia começado a produzir o segundo disco de Luciana quando sofreu o acidente). Agora, o compositor apresenta uma versão mais curta da música. Um sutil teclado ao fundo acompanha a faixa que sobe de tom na última estrofe.



05 – A Lua Que Eu Te Dei
(Herbert Vianna)

Embalada pelo sucesso de “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, Ivete Sangalo ganhou mais uma jóia de Herbert Vianna. “A Lua Que Eu Te Dei” é uma bela canção escrita para Lucy e gravada pela cantora baiana em 2000 com direito a um solo de guitarra feito por Herbert. A simplicidade da interpretação registrada em “Victoria” torna a música uma declaração ainda mais emocionante revelando uma bela sequência de acordes, enquanto um sintetizador minimoog completa o clima.



06 – Noites de Sol, Dias de Lua
(Herbert Vianna)

Com uma letra interessante e bem articulada, esta música integrou o repertório do primeiro disco da atriz e cantora Kátia B (esposa de João Barone), lançado em 2000. A nova versão de Herbert é um pouco mais acelerada que a gravação com orquestra feita anteriormente por Kátia. Novamente, a camada sonora preparada por Chico Neves aparece em alguns momentos sem comprometer o arranjo acústico.



07 – Mulher Sem Nome
(Herbert Vianna)

Uma das faixas mais obscuras de “Victoria”. Talvez a mais experimental. Foi cedida por Herbert ao músico mineiro Eduardo Toledo que a gravou em 1996 com participação do líder dos Paralamas na guitarra. É justo que composições que poderiam passar despercebidas até por fãs ganhem uma nova chance de notoriedade. A batida diferente do violão, os versos entrelaçados em rimas, o backing vocal “stoneano” e os efeitos sonoros colaboram para um resultado interessante.



08 – Pra Terminar
(Herbert Vianna)

Mais uma ótima balada com a marca de Herbert Vianna. Fala sobre o fim de um amor ainda não superado. O Biquíni Cavadão gravou primeiro em 2000. No ano seguinte, a cantora Ana Carolina também registrou sua interpretação da música. A versão gravada por Herbert é mais suave e é baseada em um violão dedilhado. No meio da faixa há uma breve intervenção com efeitos psicodélicos. Um conjunto sonoro semelhante surge na parte final durante uma bonita vocalização.



09 – Penso Em Você
(Herbert Vianna)

Música inédita. Composta quando Herbert ainda era adolescente e morava em Brasília. Na época, ele tinha aulas de violão com um professor chamado Alcione, que era especialista em bossa nova. Herbert não apenas aprendeu a tocar todos os clássicos desse estilo como tratou de escrever sua própria canção bossa-novista. Cursando a 8ª série, Herbert inscreveu “Penso em Você” em um festival da escola e conquistou o 3º lugar.



10 – Une Chanson Triste
(Herbert Vianna)

Herbert escreveu esta música quando soube da morte de Renato Russo. A canção (cujo título traduzido do francês significa “Uma Canção Triste”) é dedicada ao amigo e líder da Legião Urbana. Foi gravada primeiramente pela cantora Daúde em 1997. Três anos mais tarde, Herbert decidiu gravar a música em seu álbum “O Som do Sim”, dividindo os vocais com Daúde. A versão solo em “Victoria” é baseada em um dedilhado semelhante ao da faixa “Flores No Deserto”, do álbum “Longo Caminho” (2002), dos Paralamas. (Nota: Herbert foi uma das poucas pessoas a quem Renato Russo confessou ser portador do vírus HIV).



11 – Quando Você Não Está Aqui
(Herbert Vianna/ Paulo Sérgio Valle)

Esta canção foi composta em parceria com Paulo Sérgio Valle com a intenção de ser entregue a Roberto Carlos, mas acabou indo parar no disco “Maricotinha” de Maria Bethânia, lançado em 2001. É uma das músicas mais calmas de “Victoria”.



12 – Canção Pra Quando Você Voltar
(Herbert Vianna/ Leoni)


Na véspera do acidente com o ultraleve, em 2001, Herbert entregou esta melodia para Leoni adicionar a letra. A música deveria fazer parte do próximo disco dos Paralamas. Cerca de um mês depois, enquanto Herbert ainda estava internado, Leoni teve a ideia de criar uma letra falando simbolicamente de como as coisas eram cuidadas enquanto o amigo se recuperava no hospital. Imaginando o ponto de vista de Herbert, a letra diz “alguém pra olhar a casa e alguém que regue o meu jardim até quando eu chegar”. Foi gravada em 2003 no ao vivo “Áudio-Retrato”, de Leoni, com participação de Herbert. Foi um momento especial para os parceiros de longa data cantarem essa música juntos, e a nova versão de Herbert é emocionante ao lembrarmos que o personagem da música sobreviveu para cantar a canção.



13 – Vem Pra Mim
(Herbert Vianna)

Esta canção de Herbert foi gravada pelo RPM no álbum ao vivo “MTV RPM 2002”. Entrou no repertório com uma das músicas inéditas apresentadas pela banda. A versão de Herbert lançada agora tem uma introdução de guitarra com duração de meio minuto até entrar o violão e alguns efeitos. Diferentemente da gravação de Paulo Ricardo e companhia, Herbert optou por declamar parte da letra. O refrão simples com melodia suave garante mais um momento de leveza do compositor.  



14 – Nada Por Mim
(Herbert Vianna/ Paula Toller)

Uma das composições mais aclamadas de Herbert Vianna. Trata-se de uma parceria com Paula Toller, do Kid Abelha. O guitarrista tinha em sua mente o refrão pronto, mas não conseguia desenvolver o restante da música. Então, Paula o auxiliou e juntos criaram os demais versos. Foi gravada primeiramente por Marina Lima, em 1985. No ano seguinte, o Kid Abelha incluiu “Nada Por Mim” como a única faixa inédita de seu primeiro disco ao vivo. Nelson Gonçalves e Ney Matogrosso também gravaram a canção. Também houve uma inesquecível interpretação de Renato Russo acompanhado apenas por Herbert na guitarra durante o especial de TV “Legião Urbana e Paralamas”. Finalmente, chegou a vez de Herbert. Sua versão começa direto na letra acompanhada apenas por um arranjo vocal. O violão entra no refrão. A segunda estrofe sobe um tom e recebe o teclado de Chico Neves. A vocalização retorna no final completando a beleza da melodia.



15 – Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim
(Herbert Vianna/ Paulo Sérgio Valle)

Escrita em homenagem a Lucy, esta canção (outra parceria com Paulo Sérgio Valle) foi gravada por Ivete Sangalo em 1999 por sugestão de Herbert, que achou que a cantora deveria emprestar sua voz a uma balada. Ele estava certo. A música se tornou um dos maiores sucessos da baiana tocando constantemente nas rádios e fez parte da trilha sonora da novela Uga-Uga (2000). Posteriormente, Herbert fez uma versão em inglês jamais gravada oficialmente, mas que ele mostra no documentário “Herbert De Perto” (2009). A versão (em português) contida em “Victoria” começa com a melodia sendo executada no violão. A interpretação de Herbert deixa transparecer todo o seu amor dedicado à Lucy.



16 – Um Amor, Um Lugar
(Herbert Vianna)

Esta música se tornou conhecida através da gravação de Fernanda Abreu, em 1997, com participação de Herbert nos vocais. Dois anos depois, os Paralamas incluíram a música em seu “Acústico MTV”. Agora, o compositor mostra sua versão pessoal do tema. O acompanhamento de Chico Neves é eficiente mais uma vez. A canção termina com um trecho do clássico “Norwegian Wood (This Bird Has Flown)”, dos Beatles.



17 – Só Sei Amar Assim
(Herbert Vianna)

A versão de Zizi Possi para “Meu Erro”, feita em 1989, deixou Herbert Vianna de boca aberta diante da nova perspectiva que a cantora deu à letra com sua interpretação. Em 1999, ela participou do “Acústico MTV” dos Paralamas cantando em um novo arranjo da canção. Em 2002, Herbert cedeu a inédita “Só Sei Amar Assim” à Zizi. Novamente, os versos do compositor foram interpretados com sucesso pela cantora. A versão solo de Herbert é um pouco mais rápida. Breves solos de violão compõem a faixa.



18 – Blues da Garantia
(Herbert Vianna)

Esta música foi gravada pelo tecladista blueseiro Ari Borges, em 2001, e deu título ao seu álbum de estreia. Um blues puro e característico com letra interessante escrita por Herbert (“...qualquer garantia de que em algum lugar no mundo alguém vive sem agonia”) e passagens marcantes do violão como o estilo pede. Trata-se da faixa mais curta de “Victoria” com menos de 1 minuto e meio de duração.



19 – Sinto Muito
(Herbert Vianna)

Esta é a versão original de “Todas As Coisas”, escrita por Herbert e gravada pela banda Nenhum De Nós em 1996, no disco “Mundo Diablo”. Na época, além da mudança de título, a letra sofreu algumas alterações feitas por Herbert e Thedy Correia, o líder do grupo gaúcho. Agora, o Paralama recupera a canção a partir do momento em que foi criada.



20 – Derretendo Satélites
(Herbert Vianna/ Paula Toller)

Mais uma parceria de Herbert Vianna e Paula Toller. A canção faz parte do primeiro álbum solo da cantora, lançado em 1998. Foi também seu primeiro single individual. Herbert usa um sutil efeito na voz em sua interpretação da música. Um breve, porém virtuoso solo de violão encerra a faixa. E, assim, encerra-se o disco “Victoria”.



Curiosidade 1: Chico Neves produziu o álbum “Hey Na Na” (1998), dos Paralamas, e a faixa “Um Truque”, do disco “O Som do Sim” (2000) de Herbert Vianna. Outra colaboração do produtor com a banda foi na programação de sequencer em “Tribunal de Bar”, faixa de “Os Grãos” (1991).

Curiosidade 2: A capa de “Victoria” é assinada pelo artista plástico Barrão. Ele também é o responsável pela arte gráfica dos dois primeiros discos solo de Herbert Vianna, “Ê Batumaré” (1992) e “Santorini Blues” (1997). Além destes, o artista também criou a capa de “Hey Na Na” (1998), dos Paralamas do Sucesso.


Textos: Adailton Lacerda

LEGIÃO URBANA - QUE PAÍS É ESTE (1978/1987)




O ÚLTIMO PUNK DO POETA



Enquanto a Legião Urbana evoluía, Renato Russo parecia ter necessidade de aprimorar suas letras e ao mesmo tempo não deixar o passado para trás. Após dois discos lançados, e sucesso mais do que estabelecido com hits como “Será”, “Tempo Perdido” e “Eduardo e Mônica”, o vocalista decide que o terceiro trabalho da banda será basicamente de material que havia ficado pelo caminho. Composições da época de sua antiga banda punk, o Aborto Elétrico, da fase Trovador Solitário (em que se apresentava sozinho com violão abrindo shows da Plebe Rude) e chegando aos tempos então recentes da Legião. Embora a alegação oficial para este repertório seja a de combater e saciar os fãs que trocavam gravações piratas com essas músicas, é provável que Renato considerasse as letras atuais, principalmente a faixa-título, e tanto ele quanto Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha acreditavam que certas canções deveriam ser gravadas. Além disso, havia uma pressão da gravadora EMI para que lançassem logo um novo álbum por causa do espantoso sucesso de “Dois” (1986). Porém, ainda não havia canções inéditas suficientes para preencher um disco. O texto do encarte diz que as faixas podem soar “deslocadas” por não haver mais a inocência da época. A produção é de Mayrton Bahia. Muito mais do que um registro de lembranças, “Que País É Este” é a confirmação de que o grito de rebeldia dos jovens, surgido ainda durante a ditadura militar, ainda se fazia necessária, e o faz ainda hoje. Mais de 20 anos depois do lançamento do álbum, e 30 anos depois da criação de algumas de suas músicas, o grito parece cada vez mais distante de ser silenciado. E enquanto o país for “este”, o grito jamais se calará.


FAIXA A FAIXA


01 –
Que País É Este
(Renato Russo)

Escrita em 1978, trata-se de um grande exemplo do punk da época do Aborto Elétrico. A batida tribal, os três acordes e a letra politizada que caracterizavam o movimento. Segundo Renato Russo, a canção permanecia guardada por acreditar que a situação do país poderia mudar. A letra fazia sentido quando era tocada nas calçadas de Brasília dez anos antes e continuava a fazer ao ser gravada, e se tornando obrigatória em todos os shows da Legião Urbana. Há um misto de indignação e esperança. Há sujeira no senado, mas “todos acreditam no futuro da nação”. Mesmo sendo um punk com guitarras pesadas, conseguiram encaixar perfeitamente um riff de violão. Clássico da banda.


02 –
Conexão Amazônica
(Renato Russo/ Felipe Lemos)

Composta em 1980 em parceria com o então baterista do Aborto Elétrico, Fê Lemos (que depois formaria o Capital Inicial). Um punk típico e muito bem executado. Começa falando da época em que os conceitos de Freud, Jung, Engels e Marx eram discutidos em mesas de bar pelos jovens no final da década de 1970. Em seguida, a letra fala de quando a Amazônia era rota obrigatória de drogas antes de serem repassadas aos grandes centros. A denúncia é tão clara (“os tambores da selva já começaram a rufar, a cocaína não vai chegar, conexão amazônica está interrompida”) que foi proibida pela censura. Assim como a faixa anterior, inclui um violão que se encaixa bem com as guitarras. Nenhuma das letras do disco precisou ser alterada ou modificada para se adaptar à época do lançamento.


03 –
Tédio (Com um T bem Grande pra Você)
(Renato Russo)

Esta música sintetizava bem os jovens de Brasília da geração de Renato Russo. Eles achavam que viver na cidade, na época, era um tédio e ainda em meio à concentração política do país. Não havia muita coisa para fazer e por isso se reuniam em turmas para ouvir música nas ruas. Foi escrita em 1979 e gravada em apenas um take. A conotação sexual, típica dos jovens e da agressividade do punk veio de uma bela sacada de Renato. Não entrou no primeiro disco porque preferiram abordar temas mais sérios. O subtítulo entre parênteses foi acrescentado para não haver confusão com a música “Tédio” lançada em 1985 pelo Biquíni Cavadão.


04 –
Depois do Começo
(Renato Russo)

A letra surgiu em 1982 (pós-Aborto Elétrico). Um verdadeiro jogo de frases que implica em um desafio de códigos secretos. O encarte avisa que quem tentar interpretar os versos descobrirá mais sobre si mesmo do que sobre a música. A guitarra define o ritmo de ska e assim era tocada ao vivo desde os primeiros shows da Legião Urbana. Não há como ouvir a música sem se perguntar como surgiram tais versos.


05 –
Química
(Renato Russo)

Esta é a última faixa do espólio do Aborto Elétrico. Simboliza tanto o fim do grupo quanto o surgimento da Legião para uma gravadora. Conta-se que o fim da banda punk de Renato se deu por conta de discórdia entre seus integrantes sobre a letra de “Química”. Os irmãos Flávio e Fê Lemos (baixo e bateria) formariam o Capital Inicial enquanto Renato, após uma fase solo, formaria a Legião. O repertório do Aborto foi dividido entre as duas bandas. Coube ao Capital Inicial gravar “Música Urbana”, “Fátima” e “Veraneio Vascaína”, todas escritas por Renato. Em 1983, Os Paralamas do Sucesso gravavam no Rio de Janeiro o seu primeiro LP, “Cinema Mudo”, e incluíram “Química” (porém com a letra alterada para “passar nesse tal de vestibular” substituindo o “porra de vestibular” da letra original). Jorge Davidson, diretor artístico da EMI, quis conhecer mais composições do autor. Foi então que Herbert Vianna lhe entregou uma fita-demo onde Renato Russo interpretava suas canções no esquema voz/violão. A Legião Urbana foi prontamente contratada. “Química” foi gravada no primeiro take de uma só vez e aproveitando o fim do regime militar, preservaram o palavrão original. Punk.


06 –
Eu Sei
(Renato Russo)

Escrita em 1982 e chamada inicialmente de “18 e 21”, se tornou uma das músicas mais queridas e típicas da banda. Renato percebeu isso quando a partir de gravações piratas ao vivo, os fãs passaram a pedir nos shows para que a banda tocasse “sexo verbal”. O arranjo aparentemente simples é bem trabalhado com a voz e violão de Renato sendo acompanhados por uma batida ostensiva de Bonfá realçada pelo baixo de Rocha e guitarras inquietantes de Dado. Tudo isso emoldurando uma letra mais do que inspirada. Poderia ter integrado o disco “Dois” que deveria ser duplo e se chamar “Mitologia e Intuição”.


07 –
Faroeste Caboclo
(Renato Russo)

Escrita em 1979 e com duração de 9 minutos, contrariou as expectativas da gravadora e se tornou um dos maiores sucessos radiofônicos do Brasil. Uma marca registrada da Legião Urbana. A canção-narrativa, formato já antes experimentado em “Eduardo e Mônica” (embora “Faroeste Caboclo” tenha sido composta antes), com seus 159 versos que não se repetem, se tornou um símbolo. Uma história que todo mundo gosta de ouvir e cantar. Flávio Lemos, baixista do Capital Inicial (e ex-Aborto Elétrico), revelou ter sido inspiração para a música. Na época, Renato gostava de uma prima, Mariana. Em uma viajem para Búzios (da qual Renato não participou), Flávio e Mariana acabaram ficando juntos. Renato ficou sabendo e considerou isso uma traição. Logo que voltou de viajem, Flávio foi procurado por Renato. Ao invés de brigar, Renato lhe disse que passou a noite inteira escrevendo a letra de “Faroeste Caboclo” e que Flávio era o Jeremias, Mariana era a Maria Lúcia e o próprio Renato era o João de Santo Cristo. “Ele criou um épico com a história”, diria o baixista. O curioso é que originalmente, a letra de “Faroeste Caboclo” era cantada com a melodia de “Fátima” e vice-versa. Com o fim do Aborto Elétrico, Renato passou a (tentar) cantar “Faroeste” em suas apresentações como Trovador Solitário, mas não havia uma boa aceitação por parte dos punks de Brasília na época. Depois de gravada, com arranjo que alterna entre o folk e o rock, se tornou um clássico definitivo e obrigatório nos shows da Legião Urbana até o fim.


08 –
Angra dos Reis
(Renato Russo/ Renato Rocha/ Marcelo Bonfá)

Escrita logo após o lançamento de “Dois”. Agora o repertório original de punk ficava definitivamente para trás depois de registrado. Esta é uma das canções mais melancólicas da banda. O teclado, que tanto caracteriza o som do grupo, pontua a música toda. O vocal de Renato é suave até a interpretação assumir um tom de blues. Apesar da menção à usina nuclear, é na verdade uma música sobre solidão.


09 –
Mais do Mesmo
(Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Renato Rocha/ Marcelo Bonfá)

Também composta após o lançamento do segundo disco. Um rock poderoso cheio de guitarras e bom trabalho de bateria e baixo. A letra e a interpretação vigorosa de Renato são destaque. Pela terceira vez (depois de “Índios” e “Que País É Este”), o extermínio de índios se mostra uma preocupação de Renato: “todos os índios foram mortos”. Esta faixa quase deu nome ao disco. “Mais do Mesmo”, assim como o restante do álbum, é uma prova de que a Legião Urbana era capaz de seguir por qualquer vertente do rock. E capaz de fazer bem feito.
Curiosidade: Três músicas ficaram de fora do álbum: “A Canção do Senhor da Guerra”, que integraria o disco “Música P/ Acampamentos” (1992), “Dado Viciado”, para evitar confusões com Dado Villa-Lobos (na verdade o personagem era um primo de Renato), mas que seria lançada mais tarde no póstumo “Uma Outra Estação” (1997) e “O Grande Inverno da Rússia”, um número instrumental que permanece inédito.


Textos: Adailton Lacerda

OS PARALAMAS DO SUCESSO - SEVERINO






BRASILIDADE À FRENTE DO TEMPO


Sabe aqueles discos que são descobertos e cultuados depois de décadas? “Severino”, lançado pelos Paralamas em 1994, é um bom exemplo. Mesmo não estando entre as produções mais bem-sucedidas comercialmente do trio, os fãs conhecem bem e entendem a importância dessa obra-prima. Geralmente é assim. Um álbum não-convencional, realmente bem feito e à frente de seu tempo, passa quase despercebido pela mídia e pelo mercado fonográfico, mas trata-se de um trabalho genial. É bastante provável que “Severino” seja referência indispensável no futuro. Após um momento de crise no país, os Paralamas, mais do que consagrados, ousaram no sucessor de “Os Grãos” (1991). Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone foram para Chertsey, na Inglaterra, onde passaram três meses trabalhando com o produtor Phil Manzanera (ex-guitarrista do Roxy Music).  Mas não é por trabalharem com um inglês e gravarem na terra da Rainha que as novas músicas seriam concebidas com um ar britânico. Pelo contrário. A influência é totalmente brasileira e o título já denuncia uma tendência nordestina. As letras, com temas sociais e poesia às vezes complexa, foram emolduradas com arranjos incomuns que incluem desde violas e teclados diversos até cano de PVC e serrote. Cada faixa se torna uma história com trilha sonora. Um capítulo musical à parte. As participações incluem Tom Zé, Fito Paez, e o ex-Queen Brian May, entre outros. O resultado é único. É simplesmente o som de “Severino”. É o som dos Paralamas em um nível compreensível para aqueles que realmente sabem ouvir e entender música e reconhecer uma produção caprichada. Os fãs sabem. O futuro há de saber.



FAIXA A FAIXA



01 – Não Me Estrague o Dia
(Herbert Vianna/ Bi Ribeiro)

O excelente arranjo de vozes de Herbert simula um diálogo entre empregado e patrão. Enquanto o primeiro está plantando milho e pedindo aumento, o segundo está em reunião, em um restaurante francês e jamais recebe o empregado. Uma clara denúncia do contraste social do país que se tivesse sido escrita um século antes teria inspirado o sindicalismo. O acompanhamento agrega surdo, pratos, programação de bateria, baixo e teclados, além da percusão de Eduardo Lyra.


02 – Navegar Impreciso
(Herbert Vianna)

A letra refere-se à conturbada relação entre Brasil e Portugal. Tom Zé, representante direto do Tropicalismo, canta/declama a primeira parte brilhantemente e acrescentando uma segunda faixa de voz ao fundo. A segunda parte é o mesmo texto, porém traduzido para o inglês e recitado pelo poeta dub jamaicano Linton Kwesi Johnson. O arranjo é composto por muita percusão (cuíca, por exemplo), instrumentos de sopro que incluem um cano de PVC, além de guitarra, baixo e teclados.


03 – Varal
(Herbert Vianna)

A letra emblemática, guiada por guitarra distorcida, viola e slide, logo dá lugar a uma sessão instrumental de causar arrepios. Capaz de unir sutileza e complexidade. É fechar os olhos, sentir a melodia e deixar-se levar por uma viagem sonora que deixa a impressão de que poderia ser mais longa.


04 – Réquiem do Pequeno
(Herbert Vianna)

O arranjo é tão inquieto quanto a letra. Herbert gravou guitarra, baixo, violão de 12 cordas, E-bow e piano. A percusão de Lyra e a bateria de Barone estão em plena sincronia. Os vocais se entrelaçam entre as estrofes. Uma faixa que poderia ser definida como “psicodelia brasileira”. O Agenor citado na música é o Cazuza. Esse era seu nome verdadeiro.


05 – Vamo Batê Lata
(Herbert Vianna)

Uma levada que mistura funk com outros ritmos latinos com toque paralâmico. A idéia de “percussão de rua” que a letra sugere é representada na gravação por elementos como latão de óleo, balde e xequerê (cabaça africana), ou seja, todos podem tirar um som batucando em qualquer objeto. É curioso manterem o título escrito como se fala, ao invés de “vamos bater lata”. Esse título daria nome ao disco ao vivo lançado no ano seguinte.


06 – El Vampiro Bajo El Sol
(Fito Paez/ Herbert Vianna)

A letra em espanhol foi escrita por Herbert (a primeira que ele fez neste idioma) e é dedicada ao músico argentino Charly Garcia. O lirismo é realçado pela bela melodia composta por outro argentino, Fito Paez, que participa tocando piano. Começa como uma balada suave e logo se transforma numa ballad/rock poderosa com a participação de Brian May do Queen, que tocou guitarras e deu uma força nos vocais de apoio. O arranjo ainda conta com a Reggae Philarmonic Orchestra. O backing vocal, à lá Queen, dá um toque a mais enquanto Brian dá um show à parte com sua inconfundível guitarra solo.


07 – Músico
(Bi Ribeiro/ Herbert Vianna/ Tom Zé)

Tom Zé ressurge em “Severino” desta vez como letrista. Um texto típico de sua obra. Um poema non-sense q começa com a metáfora do homem no jardim do Éden e resulta na fecundação humana. Mais uma vez Herbert grava um certeiro jogo de vozes. O arranjo “neo-tropicalista” inclui até o som de um serrote produzido pelo servente do Gallery Studios.


08 – Dos Margaritas
(Herbert Vianna/ Bi Ribeiro)

É a vez de Herbert usar do non-sense com frases soltas, porém não desconexas. O arranjo com saxofones, e o fechamento do refrão em espanhol sobre uma bebida de origem mexicana, ajudaram a fazer da música um sucesso em diversos países da América do Sul, principalmente a Argentina. O vídeo-clipe poderia ser considerado como as imagens de “Severino”.


09 – O Rio Severino
(Herbert Vianna)

De longe a faixa mais forte do álbum. Uma espécie de “rock nordestino” segundo o próprio Bi Ribeiro. Na verdade, esta já havia sido lançada por Herbert em seu primeiro disco-solo, “Ê Batumaré” (1992). Os Paralamas a regravaram com arranjo semelhante, mas iniciando com uma viola então interrompida por um potente rock and roll de guitarras, baixo e bateria para corresponder ao feroz desabafo contra o analfabetismo. A viola ressurge no final unindo-se ao rock.


10 – Cagaço
(Herbert Vianna/ Bi Ribeiro)

Esta fala da situação social no Brasil. Uma letra que narra surrealmente as dificuldades e desilusões do cidadão brasileiro comum e cita nominalmente o poeta Wally Salomão. A programação de bateria, baixo e teclados é caprichada junto à inconfundível sessão de metais e à guitarra que pontua frases de blues em alguns trechos. A voz de Herbert está no centro até chegar ao refrão e se dividir em duas, uma de cada lado.


11 – O Amor Dorme
(Herbert Vianna)

Esta é a mais radiofônica do disco. Uma poesia romântica sem chegar perto do clichê em momento algum. A beleza da melodia é regada por um clima de bossa nova com a inclusão de um violão com cordas de nylon. O produtor Phil Manzanera fez o solo de guitarra. O resultado final é mais do que agradável aos ouvidos.


12 – Go Back
(Sérgio Britto/ Torquato Neto/ versão: Martim Cardoso)

Faixa bônus. Voltados também para o mercado latino, os Paralamas gravam uma versão em espanhol desta original dos Titãs. A segunda parte foi mantida em português. Os vocais e a programação seguem o alto padrão do restante do álbum.


13 – Casi Um Segundo
(Herbert Vianna/ versão: Martim Cardoso)

A segunda faixa bônus também é cantada em espanhol. Uma versão para “Quase um Segundo”, uma das melhores composições de Herbert e gravada originalmente pelos Paralamas no álbum “Bora-Bora” (1988). O experiente músico Egberto Gismonti preparou um arranjo que levou Herbert às lágrimas.


Curiosidade: A capa de “Severino” é uma obra de Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) que passou 50 anos internado em um manicômio. Para ele, a loucura só poderia ser eliminada pela morte ou pela arte. Encontrou na arte a sua válvula de escape e deixou um legado importante para a cultura brasileira.


Textos: Adailton Lacerda