
QUE PAÍS É ESTE (1978/1987)
01 – Que País É Este
(Renato Russo)
Escrita em 1978, trata-se de um grande exemplo do punk da época do Aborto Elétrico. A batida tribal, os três acordes e a letra politizada que caracterizavam o movimento. Segundo Renato Russo, a canção permanecia guardada por acreditar que a situação do país poderia mudar. A letra fazia sentido quando era tocada nas calçadas de Brasília dez anos antes e continuava a fazer ao ser gravada, e se tornando obrigatória em todos os shows da Legião Urbana. Há um misto de indignação e esperança. Há sujeira no senado, mas “todos acreditam no futuro da nação”. Mesmo sendo um punk com guitarras pesadas, conseguiram encaixar perfeitamente um riff de violão. Clássico da banda.
02 – Conexão Amazônica
(Renato Russo/Felipe Lemos)
Composta em 1980 em parceria com o então baterista do Aborto Elétrico, Fê Lemos (que depois formaria o Capital Inicial). Um punk típico e muito bem executado. Começa falando da época em que os conceitos de Freud, Jung, Engels e Marx eram discutidos em mesas de bar pelos jovens no final da década de 1970. Em seguida, a letra fala de quando a Amazônia era rota obrigatória de drogas antes de serem repassadas aos grandes centros. A denúncia é tão clara (“os tambores da selva já começaram a rufar, a cocaína não vai chegar, conexão amazônica está interrompida”) que foi proibida pela censura. Assim como a faixa anterior, inclui um violão que se encaixa bem com as guitarras. Nenhuma das letras do disco precisou ser alterada ou modificada para se adaptar à época do lançamento.
03 – Tédio (Com um T bem Grande pra Você)
(Renato Russo)
Esta música sintetizava bem os jovens de Brasília da geração de Renato Russo. Eles achavam que viver na cidade, na época, era um tédio e ainda em meio à concentração política do país. Não havia muita coisa para fazer e por isso se reuniam em turmas para ouvir música nas ruas. Foi escrita em 1979 e gravada em apenas um take. A conotação sexual, típica dos jovens e da agressividade do punk veio de uma bela sacada de Renato. Não entrou no primeiro disco porque preferiram abordar temas mais sérios. O subtítulo entre parênteses foi acrescentado para não haver confusão com a música “Tédio” lançada em 1985 pelo Biquíni Cavadão.
04 – Depois do Começo
(Renato Russo)
A letra surgiu em 1982 (pós-Aborto Elétrico). Um verdadeiro jogo de frases que implica em um desafio de códigos secretos. O encarte avisa que quem tentar interpretar os versos descobrirá mais sobre si mesmo do que sobre a música. A guitarra define o ritmo de ska e assim era tocada ao vivo desde os primeiros shows da Legião Urbana. Não há como ouvir a música sem se perguntar como surgiram tais versos.
05 – Química
(Renato Russo)
Esta é a última faixa do espólio do Aborto Elétrico. Simboliza tanto o fim do grupo quanto o surgimento da Legião para uma gravadora. Conta-se que o fim da banda punk de Renato se deu por conta de discórdia entre seus integrantes sobre a letra de “Química”. Os irmãos Flávio e Fê Lemos (baixo e bateria) formariam o Capital Inicial enquanto Renato, após uma fase solo, formaria a Legião. O repertório do Aborto foi dividido entre as duas bandas. Coube ao Capital Inicial gravar “Música Urbana”, “Fátima” e “Veraneio Vascaína”, todas escritas por Renato. Em 1983, Os Paralamas do Sucesso gravavam no Rio de Janeiro o seu primeiro LP, “Cinema Mudo”, e incluíram “Química” (porém com a letra alterada para “passar nesse tal de vestibular” substituindo o “porra de vestibular” da letra original). Jorge Davidson, diretor artístico da EMI, quis conhecer mais composições do autor. Foi então que Herbert Vianna lhe entregou uma fita-demo onde Renato Russo interpretava suas canções no esquema voz/violão. A Legião Urbana foi prontamente contratada. “Química” foi gravada no primeiro take de uma só vez e aproveitando o fim do regime militar, preservaram o palavrão original. Punk.
06 – Eu Sei
(Renato Russo)
Escrita em 1982 e chamada inicialmente de “18 e 21”, se tornou uma das músicas mais queridas e típicas da banda. Renato percebeu isso quando a partir de gravações piratas ao vivo, os fãs passaram a pedir nos shows para que a banda tocasse “sexo verbal”. O arranjo aparentemente simples é bem trabalhado com a voz e violão de Renato sendo acompanhados por uma batida ostensiva de Bonfá realçada pelo baixo de Rocha e guitarras inquietantes de Dado. Tudo isso emoldurando uma letra mais do que inspirada. Poderia ter integrado o disco “Dois” que deveria ser duplo e se chamar “Mitologia e Intuição”.
07 – Faroeste Caboclo
(Renato Russo)
Escrita em 1979 e com duração de 9 minutos, contrariou as expectativas da gravadora e se tornou um dos maiores sucessos radiofônicos do Brasil. Uma marca registrada da Legião Urbana. A canção-narrativa, formato já antes experimentado em “Eduardo e Mônica” (embora “Faroeste Caboclo” tenha sido composta antes), com seus 159 versos que não se repetem, se tornou um símbolo. Uma história que todo mundo gosta de ouvir e cantar. Flávio Lemos, baixista do Capital Inicial (e ex-Aborto Elétrico), revelou ter sido inspiração para a música. Na época, Renato gostava de uma prima, Mariana. Em uma viajem para Búzios (da qual Renato não participou), Flávio e Mariana acabaram ficando juntos. Renato ficou sabendo e considerou isso uma traição. Logo que voltou de viajem, Flávio foi procurado por Renato. Ao invés de brigar, Renato lhe disse que passou a noite inteira escrevendo a letra de “Faroeste Caboclo” e que Flávio era o Jeremias, Mariana era a Maria Lúcia e o próprio Renato era o João de Santo Cristo. “Ele criou um épico com a história”, diria o baixista. O curioso é que originalmente, a letra de “Faroeste Caboclo” era cantada com a melodia de “Fátima” e vice-versa. Com o fim do Aborto Elétrico, Renato passou a (tentar) cantar “Faroeste” em suas apresentações como Trovador Solitário, mas não havia uma boa aceitação por parte dos punks de Brasília na época. Depois de gravada, com arranjo que alterna entre o folk e o rock, se tornou um clássico definitivo e obrigatório nos shows da Legião Urbana até o fim.
08 – Angra dos Reis
(Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)
Escrita logo após o lançamento de “Dois”. Agora o repertório original de punk ficava definitivamente para trás depois de registrado. Esta é uma das canções mais melancólicas da banda. O teclado, que tanto caracteriza o som do grupo, pontua a música toda. O vocal de Renato é suave até a interpretação assumir um tom de blues. Apesar da menção à usina nuclear, é na verdade uma música sobre solidão.
09 – Mais do Mesmo
(Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)
Também composta após o lançamento do segundo disco. Um rock poderoso cheio de guitarras e bom trabalho de bateria e baixo. A letra e a interpretação vigorosa de Renato são destaque. Pela terceira vez (depois de “Índios” e “Que País É Este”), o extermínio de índios se mostra uma preocupação de Renato: “todos os índios foram mortos”. Esta faixa quase deu nome ao disco. “Mais do Mesmo”, assim como o restante do álbum, é uma prova de que a Legião Urbana era capaz de seguir por qualquer vertente do rock. E capaz de fazer bem feito.
Curiosidade: Três músicas ficaram de fora do álbum: “A Canção do Senhor da Guerra”, que integraria o disco “Música P/ Acampamentos” (1992), “Dado Viciado”, para evitar confusões com Dado Villa-Lobos (na verdade o personagem era um primo de Renato), mas que seria lançada mais tarde no póstumo “Uma Outra Estação” (1997) e “O Grande Inverno da Rússia”, um número instrumental que permanece inédito.

