O ÚLTIMO PUNK DO POETA



LEGIÃO URBANA

QUE PAÍS É ESTE (1978/1987)




Enquanto a Legião Urbana evoluía, Renato Russo parecia ter necessidade de aprimorar suas letras e ao mesmo tempo não deixar o passado para trás. Após dois discos lançados, e sucesso mais do que estabelecido com hits como “Será”, “Tempo Perdido” e “Eduardo e Mônica”, o vocalista decide que o terceiro trabalho da banda será basicamente de material que havia ficado pelo caminho. Composições da época de sua antiga banda punk, o Aborto Elétrico, da fase Trovador Solitário (em que se apresentava sozinho com violão abrindo shows da Plebe Rude) e chegando aos tempos então recentes da Legião. Embora a alegação oficial para este repertório seja a de combater e saciar os fãs que trocavam gravações piratas com essas músicas, é provável que Renato considerasse as letras atuais, principalmente a faixa-título, e tanto ele quanto Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha acreditavam que certas canções deveriam ser gravadas. Além disso, havia uma pressão da gravadora EMI para que lançassem logo um novo álbum por causa do espantoso sucesso de “Dois” (1986). Porém, ainda não havia canções inéditas suficientes para preencher um disco. O texto do encarte diz que as faixas podem soar “deslocadas” por não haver mais a inocência da época. A produção é de Mayrton Bahia. Muito mais do que um registro de lembranças, “Que País É Este” é a confirmação de que o grito de rebeldia dos jovens, surgido ainda durante a ditadura militar, ainda se fazia necessária, e o faz ainda hoje. Mais de 20 anos depois do lançamento do álbum, e 30 anos depois da criação de algumas de suas músicas, o grito parece cada vez mais distante de ser silenciado. E enquanto o país for “este”, o grito jamais se calará.



FAIXA A FAIXA


01 –
Que País É Este
(Renato Russo)

Escrita em 1978, trata-se de um grande exemplo do punk da época do Aborto Elétrico. A batida tribal, os três acordes e a letra politizada que caracterizavam o movimento. Segundo Renato Russo, a canção permanecia guardada por acreditar que a situação do país poderia mudar. A letra fazia sentido quando era tocada nas calçadas de Brasília dez anos antes e continuava a fazer ao ser gravada, e se tornando obrigatória em todos os shows da Legião Urbana. Há um misto de indignação e esperança. Há sujeira no senado, mas “todos acreditam no futuro da nação”. Mesmo sendo um punk com guitarras pesadas, conseguiram encaixar perfeitamente um riff de violão. Clássico da banda.


02 –
Conexão Amazônica
(Renato Russo/Felipe Lemos)

Composta em 1980 em parceria com o então baterista do Aborto Elétrico, Fê Lemos (que depois formaria o Capital Inicial). Um punk típico e muito bem executado. Começa falando da época em que os conceitos de Freud, Jung, Engels e Marx eram discutidos em mesas de bar pelos jovens no final da década de 1970. Em seguida, a letra fala de quando a Amazônia era rota obrigatória de drogas antes de serem repassadas aos grandes centros. A denúncia é tão clara (“os tambores da selva já começaram a rufar, a cocaína não vai chegar, conexão amazônica está interrompida”) que foi proibida pela censura. Assim como a faixa anterior, inclui um violão que se encaixa bem com as guitarras. Nenhuma das letras do disco precisou ser alterada ou modificada para se adaptar à época do lançamento.


03 –
Tédio (Com um T bem Grande pra Você)
(Renato Russo)

Esta música sintetizava bem os jovens de Brasília da geração de Renato Russo. Eles achavam que viver na cidade, na época, era um tédio e ainda em meio à concentração política do país. Não havia muita coisa para fazer e por isso se reuniam em turmas para ouvir música nas ruas. Foi escrita em 1979 e gravada em apenas um take. A conotação sexual, típica dos jovens e da agressividade do punk veio de uma bela sacada de Renato. Não entrou no primeiro disco porque preferiram abordar temas mais sérios. O subtítulo entre parênteses foi acrescentado para não haver confusão com a música “Tédio” lançada em 1985 pelo Biquíni Cavadão.


04 –
Depois do Começo
(Renato Russo)

A letra surgiu em 1982 (pós-Aborto Elétrico). Um verdadeiro jogo de frases que implica em um desafio de códigos secretos. O encarte avisa que quem tentar interpretar os versos descobrirá mais sobre si mesmo do que sobre a música. A guitarra define o ritmo de ska e assim era tocada ao vivo desde os primeiros shows da Legião Urbana. Não há como ouvir a música sem se perguntar como surgiram tais versos.


05 –
Química
(Renato Russo)

Esta é a última faixa do espólio do Aborto Elétrico. Simboliza tanto o fim do grupo quanto o surgimento da Legião para uma gravadora. Conta-se que o fim da banda punk de Renato se deu por conta de discórdia entre seus integrantes sobre a letra de “Química”. Os irmãos Flávio e Fê Lemos (baixo e bateria) formariam o Capital Inicial enquanto Renato, após uma fase solo, formaria a Legião. O repertório do Aborto foi dividido entre as duas bandas. Coube ao Capital Inicial gravar “Música Urbana”, “Fátima” e “Veraneio Vascaína”, todas escritas por Renato. Em 1983, Os Paralamas do Sucesso gravavam no Rio de Janeiro o seu primeiro LP, “Cinema Mudo”, e incluíram “Química” (porém com a letra alterada para “passar nesse tal de vestibular” substituindo o “porra de vestibular” da letra original). Jorge Davidson, diretor artístico da EMI, quis conhecer mais composições do autor. Foi então que Herbert Vianna lhe entregou uma fita-demo onde Renato Russo interpretava suas canções no esquema voz/violão. A Legião Urbana foi prontamente contratada. “Química” foi gravada no primeiro take de uma só vez e aproveitando o fim do regime militar, preservaram o palavrão original. Punk.


06 –
Eu Sei
(Renato Russo)

Escrita em 1982 e chamada inicialmente de “18 e 21”, se tornou uma das músicas mais queridas e típicas da banda. Renato percebeu isso quando a partir de gravações piratas ao vivo, os fãs passaram a pedir nos shows para que a banda tocasse “sexo verbal”. O arranjo aparentemente simples é bem trabalhado com a voz e violão de Renato sendo acompanhados por uma batida ostensiva de Bonfá realçada pelo baixo de Rocha e guitarras inquietantes de Dado. Tudo isso emoldurando uma letra mais do que inspirada. Poderia ter integrado o disco “Dois” que deveria ser duplo e se chamar “Mitologia e Intuição”.


07 –
Faroeste Caboclo
(Renato Russo)

Escrita em 1979 e com duração de 9 minutos, contrariou as expectativas da gravadora e se tornou um dos maiores sucessos radiofônicos do Brasil. Uma marca registrada da Legião Urbana. A canção-narrativa, formato já antes experimentado em “Eduardo e Mônica” (embora “Faroeste Caboclo” tenha sido composta antes), com seus 159 versos que não se repetem, se tornou um símbolo. Uma história que todo mundo gosta de ouvir e cantar. Flávio Lemos, baixista do Capital Inicial (e ex-Aborto Elétrico), revelou ter sido inspiração para a música. Na época, Renato gostava de uma prima, Mariana. Em uma viajem para Búzios (da qual Renato não participou), Flávio e Mariana acabaram ficando juntos. Renato ficou sabendo e considerou isso uma traição. Logo que voltou de viajem, Flávio foi procurado por Renato. Ao invés de brigar, Renato lhe disse que passou a noite inteira escrevendo a letra de “Faroeste Caboclo” e que Flávio era o Jeremias, Mariana era a Maria Lúcia e o próprio Renato era o João de Santo Cristo. “Ele criou um épico com a história”, diria o baixista. O curioso é que originalmente, a letra de “Faroeste Caboclo” era cantada com a melodia de “Fátima” e vice-versa. Com o fim do Aborto Elétrico, Renato passou a (tentar) cantar “Faroeste” em suas apresentações como Trovador Solitário, mas não havia uma boa aceitação por parte dos punks de Brasília na época. Depois de gravada, com arranjo que alterna entre o folk e o rock, se tornou um clássico definitivo e obrigatório nos shows da Legião Urbana até o fim.


08 –
Angra dos Reis
(Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)

Escrita logo após o lançamento de “Dois”. Agora o repertório original de punk ficava definitivamente para trás depois de registrado. Esta é uma das canções mais melancólicas da banda. O teclado, que tanto caracteriza o som do grupo, pontua a música toda. O vocal de Renato é suave até a interpretação assumir um tom de blues. Apesar da menção à usina nuclear, é na verdade uma música sobre solidão.


09 –
Mais do Mesmo
(Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)

Também composta após o lançamento do segundo disco. Um rock poderoso cheio de guitarras e bom trabalho de bateria e baixo. A letra e a interpretação vigorosa de Renato são destaque. Pela terceira vez (depois de “Índios” e “Que País É Este”), o extermínio de índios se mostra uma preocupação de Renato: “todos os índios foram mortos”. Esta faixa quase deu nome ao disco. “Mais do Mesmo”, assim como o restante do álbum, é uma prova de que a Legião Urbana era capaz de seguir por qualquer vertente do rock. E capaz de fazer bem feito.


Curiosidade: Três músicas ficaram de fora do álbum: “A Canção do Senhor da Guerra”, que integraria o disco “Música P/ Acampamentos” (1992), “Dado Viciado”, para evitar confusões com Dado Villa-Lobos (na verdade o personagem era um primo de Renato), mas que seria lançada mais tarde no póstumo “Uma Outra Estação” (1997) e “O Grande Inverno da Rússia”, um número instrumental que permanece inédito.

BRASILIDADE À FRENTE DO TEMPO!





OS PARALAMAS DO SUCESSO


SEVERINO


Sabe aqueles discos que são descobertos e cultuados depois de décadas? “Severino”, lançado pelos Paralamas em 1994, é um bom exemplo. Apesar de ser o disco menos vendido do trio, os fãs o conhecem bem e entendem a importância dessa obra-prima. Geralmente é assim: um álbum não-convencional, realmente bem feito e à frente de seu tempo passa despercebido pela mídia e pelo comércio, mas se trata de um trabalho genial. É bastante provável que “Severino” seja referência indispensável no futuro. Após um momento de crise no país, os Paralamas, mais do que consagrados, ousaram no sucessor de “Os Grãos” (1991). Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone foram para Chertsey, Inglaterra, passar três meses trabalhando com o produtor Phil Manzanera (ex-guitarrista do Roxy Music). Mas não é por trabalharem com um inglês e gravarem na terra da Rainha que “Severino” foi concebido por influências britânicas. Pelo contrário. A influência é totalmente brasileira, e o título já denuncia uma tendência nordestina. As letras, com temas sociais e poesia às vezes complexa, foram emolduradas com arranjos incomuns que incluem desde violas e teclados diversos até cano de PVC e serrote. Cada faixa se torna uma história com trilha sonora. Um capítulo musical à parte. As participações incluem Tom Zé, Fito Paez, o ex-Queen Brian May, e outros. O resultado é único. É simplesmente o som de “Severino”. É o som dos Paralamas em um nível compreensível para aqueles que realmente sabem ouvir e entender música e reconhecer uma produção caprichada. Os fãs sabem. O futuro há de saber.




FAIXA A FAIXA




01Não Me Estrague o Dia

(Herbert Vianna/Bi Ribeiro)


O excelente arranjo de vozes de Herbert simula um diálogo entre empregado e patrão. Enquanto o primeiro está plantando milho, pedindo aumento, o segundo está em reunião, em restaurante francês e jamais recebe o empregado. Uma clara denúncia do contraste social do país que se tivesse sido escrita um século antes teria inspirado o sindicalismo. O acompanhamento agrega surdo, pratos, programação de bateria, baixo e teclados, além da percusão de Eduardo Lyra.



02Navegar Impreciso

(Herbert Vianna)


A letra refere-se à conturbada relação entre Brasil e Portugal. Tom Zé, representante direto do Tropicalismo, canta/declama a primeira parte brilhantemente e acrescentando uma segunda faixa de voz ao fundo. A segunda parte é o mesmo texto, porém traduzido para o inglês e recitado pelo poeta dub jamaicano Linton Kwesi Johnson. O arranjo é composto por muita percusão (cuíca, por exemplo), instrumentos de sopro que incluem um cano de PVC, além de guitarra, baixo e teclados.



03Varal

(Herbert Vianna)


A letra emblemática, guiada por guitarra distorcida, viola e slide, logo dá lugar a uma sessão instrumental de causar arrepios. Capaz de unir sutileza e complexidade. É fechar os olhos, sentir a melodia e se deixar levar por uma viagem sonora que deixa a impressão de que poderia ser mais longa.



04Réquiem do Pequeno

(Herbert Vianna)


O arranjo é tão inquieto quanto a letra. Herbert gravou guitarra, baixo, violão de 12 cordas, E-bow e piano. A percusão de Lyra e a bateria de Barone estão em plena sincronia. As vozes de Herbert se entrelaçam entre as estrofes. Uma faixa que pode ser definida como “psicodelia brasileira”. O Agenor citado na música é o Cazuza. Esse era seu nome verdadeiro.



05Vamo Batê Lata

(Herbert Vianna)


Uma levada que mistura funk com outros rítimos latinos com toque paralâmico. A idéia de “percussão de rua” que a letra sugere é representada na gravação por elementos como latão de óleo, balde e xequerê (cabaça africana), ou seja, todos podem tirar um som batucando em qualquer objeto. Curioso manterem o título escrito como se fala ao invés de “vamos bater lata”. Esse título daria nome ao disco ao vivo lançado no ano seguinte.



06El Vampiro Bajo El Sol

(Fito Paez/Herbert Vianna)


A letra em espanhol foi escrita por Herbert (a primeira que ele fez neste idioma) e é dedicada ao músico argentino Charly Garcia. O lirismo é realçado pela bela melodia composta por outro argentino, Fito Paez, que participa tocando piano. Começa como uma balada suave e logo se transforma numa ballad/rock poderosa com a participação de Brian May do Queen, que tocou guitarras e deu uma força nos vocais. O arranjo ainda conta com a Reggae Philarmonic Orchestra. O backing vocal à lá Queen dá um toque a mais enquanto Brian dá um show a parte com sua inconfundível guitarra.



07Músico

(Bi Ribeiro/Herbert Vianna/Tom Zé)


Tom Zé ressurge em “Severino” desta vez como letrista. Um texto típico de sua obra. Um poema non-sense q começa com a metáfora do homem no jardim do Éden e resulta na fecundação humana. Mais uma vez, Herbert grava um certeiro jogo de vozes. O arranjo “neo-tropicalista” inclui até o som de um serrote produzido pelo servente do Gallery Studios.



08Dos Margaritas

(Herbert Vianna/Bi Ribeiro)


É a vez de Herbert usar do non-sense com frases soltas, porém não desconexas. O arranjo com saxofones e a conclusão do refrão em espanhol sobre uma bebida de origem mexicana, ajudaram a fazer da música um sucesso em diversos países da América do Sul, principalmente a Argentina. O vídeo-clipe pode ser considerado como as imagens de “Severino”.



09O Rio Severino

(Herbert Vianna)


De longe a faixa mais forte do álbum. Uma espécie de “rock nordestino” segundo o próprio Bi Ribeiro. Na verdade, esta já havia sido lançada por Herbert em seu primeiro disco-solo, “Ê Batumaré” (1992). Os Paralamas a regravaram com arranjo semelhante, mas iniciando com uma viola então interrompida por um potente rock and roll de guitarras, baixo e bateria para corresponder ao feroz desabafo contra o analfabetismo da letra. A viola ressurge no final se unindo ao rock.



10Cagaço

(Herbert Vianna/Bi Ribeiro)


Esta fala da situação social do Brasil. Uma letra que narra surrealmente as dificuldades e desilusões do cidadão brasileiro comum e cita nominalmente o poeta Wally Salomão. A programação de bateria, baixo e teclados é caprichada, aliada à inconfundível sessão de metais e a guitarra pontuando um blues em alguns trechos. A voz de Herbert está no centro até chegar ao refrão e se dividir em duas, uma de cada lado.



11O Amor Dorme

(Herbert Vianna)


Esta é a mais radiofônica do disco. Uma poesia romântica, mas sem chegar perto do clichê em momento algum. A beleza da melodia é regada por um clima de bossa nova com a inclusão de um violão com cordas de nylon. O produtor Phil Manzanera fez o solo de guitarra. O resultado final é mais do que agradável aos ouvidos.



12Go Back

(Sérgio Britto/Torquato Neto/versão: Martim Cardoso)


Faixa bônus. Voltados também para o mercado latino, os Paralamas gravam uma versão em espanhol desta original dos Titãs. A segunda parte é mantida em português. Os vocais e a programação seguem o alto padrão do restante do álbum.



13Casi Um Segundo

(Herbert Vianna/versão: Martim Cardoso)


A segunda faixa bônus também é cantada em espanhol. Uma versão para “Quase um Segundo”, uma das melhores composições de Herbert e gravada originalmente pelos Paralamas no álbum “Bora-Bora” (1988). O experiente músico Egberto Gismonti preparou um arranjo que levou Herbert às lágrimas.



Curiosidade: A capa de “Severino” é uma obra de Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) que passou 50 anos internado em um manicômio. Para ele, a loucura só poderia ser eliminada pela morte ou pela arte. Encontrou na arte a sua válvula de escape e deixou um legado importante para a cultura brasileira.