BRASILIDADE À FRENTE DO TEMPO
Sabe aqueles discos que são descobertos e cultuados depois de décadas? “Severino”, lançado pelos Paralamas em 1994, é um bom exemplo. Mesmo não estando entre as produções mais bem-sucedidas comercialmente do trio, os fãs conhecem bem e entendem a importância dessa obra-prima. Geralmente é assim. Um álbum não-convencional, realmente bem feito e à frente de seu tempo, passa quase despercebido pela mídia e pelo mercado fonográfico, mas trata-se de um trabalho genial. É bastante provável que “Severino” seja referência indispensável no futuro. Após um momento de crise no país, os Paralamas, mais do que consagrados, ousaram no sucessor de “Os Grãos” (1991). Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone foram para Chertsey, na Inglaterra, onde passaram três meses trabalhando com o produtor Phil Manzanera (ex-guitarrista do Roxy Music). Mas não é por trabalharem com um inglês e gravarem na terra da Rainha que as novas músicas seriam concebidas com um ar britânico. Pelo contrário. A influência é totalmente brasileira e o título já denuncia uma tendência nordestina. As letras, com temas sociais e poesia às vezes complexa, foram emolduradas com arranjos incomuns que incluem desde violas e teclados diversos até cano de PVC e serrote. Cada faixa se torna uma história com trilha sonora. Um capítulo musical à parte. As participações incluem Tom Zé, Fito Paez, e o ex-Queen Brian May, entre outros. O resultado é único. É simplesmente o som de “Severino”. É o som dos Paralamas em um nível compreensível para aqueles que realmente sabem ouvir e entender música e reconhecer uma produção caprichada. Os fãs sabem. O futuro há de saber.
FAIXA A FAIXA
01 – Não Me Estrague o Dia
(Herbert Vianna/ Bi Ribeiro)
O excelente arranjo de vozes de Herbert simula um diálogo entre empregado e patrão. Enquanto o primeiro está plantando milho e pedindo aumento, o segundo está em reunião, em um restaurante francês e jamais recebe o empregado. Uma clara denúncia do contraste social do país que se tivesse sido escrita um século antes teria inspirado o sindicalismo. O acompanhamento agrega surdo, pratos, programação de bateria, baixo e teclados, além da percusão de Eduardo Lyra.
02 – Navegar Impreciso
(Herbert Vianna)
A letra refere-se à conturbada relação entre Brasil e Portugal. Tom Zé, representante direto do Tropicalismo, canta/declama a primeira parte brilhantemente e acrescentando uma segunda faixa de voz ao fundo. A segunda parte é o mesmo texto, porém traduzido para o inglês e recitado pelo poeta dub jamaicano Linton Kwesi Johnson. O arranjo é composto por muita percusão (cuíca, por exemplo), instrumentos de sopro que incluem um cano de PVC, além de guitarra, baixo e teclados.
03 – Varal
(Herbert Vianna)
A letra emblemática, guiada por guitarra distorcida, viola e slide, logo dá lugar a uma sessão instrumental de causar arrepios. Capaz de unir sutileza e complexidade. É fechar os olhos, sentir a melodia e deixar-se levar por uma viagem sonora que deixa a impressão de que poderia ser mais longa.
04 – Réquiem do Pequeno
(Herbert Vianna)
O arranjo é tão inquieto quanto a letra. Herbert gravou guitarra, baixo, violão de 12 cordas, E-bow e piano. A percusão de Lyra e a bateria de Barone estão em plena sincronia. Os vocais se entrelaçam entre as estrofes. Uma faixa que poderia ser definida como “psicodelia brasileira”. O Agenor citado na música é o Cazuza. Esse era seu nome verdadeiro.
05 – Vamo Batê Lata
(Herbert Vianna)
Uma levada que mistura funk com outros ritmos latinos com toque paralâmico. A idéia de “percussão de rua” que a letra sugere é representada na gravação por elementos como latão de óleo, balde e xequerê (cabaça africana), ou seja, todos podem tirar um som batucando em qualquer objeto. É curioso manterem o título escrito como se fala, ao invés de “vamos bater lata”. Esse título daria nome ao disco ao vivo lançado no ano seguinte.
06 – El Vampiro Bajo El Sol
(Fito Paez/ Herbert Vianna)
A letra em espanhol foi escrita por Herbert (a primeira que ele fez neste idioma) e é dedicada ao músico argentino Charly Garcia. O lirismo é realçado pela bela melodia composta por outro argentino, Fito Paez, que participa tocando piano. Começa como uma balada suave e logo se transforma numa ballad/rock poderosa com a participação de Brian May do Queen, que tocou guitarras e deu uma força nos vocais de apoio. O arranjo ainda conta com a Reggae Philarmonic Orchestra. O backing vocal, à lá Queen, dá um toque a mais enquanto Brian dá um show à parte com sua inconfundível guitarra solo.
07 – Músico
(Bi Ribeiro/ Herbert Vianna/ Tom Zé)
Tom Zé ressurge em “Severino” desta vez como letrista. Um texto típico de sua obra. Um poema non-sense q começa com a metáfora do homem no jardim do Éden e resulta na fecundação humana. Mais uma vez Herbert grava um certeiro jogo de vozes. O arranjo “neo-tropicalista” inclui até o som de um serrote produzido pelo servente do Gallery Studios.
08 – Dos Margaritas
(Herbert Vianna/ Bi Ribeiro)
É a vez de Herbert usar do non-sense com frases soltas, porém não desconexas. O arranjo com saxofones, e o fechamento do refrão em espanhol sobre uma bebida de origem mexicana, ajudaram a fazer da música um sucesso em diversos países da América do Sul, principalmente a Argentina. O vídeo-clipe poderia ser considerado como as imagens de “Severino”.
09 – O Rio Severino
(Herbert Vianna)
De longe a faixa mais forte do álbum. Uma espécie de “rock nordestino” segundo o próprio Bi Ribeiro. Na verdade, esta já havia sido lançada por Herbert em seu primeiro disco-solo, “Ê Batumaré” (1992). Os Paralamas a regravaram com arranjo semelhante, mas iniciando com uma viola então interrompida por um potente rock and roll de guitarras, baixo e bateria para corresponder ao feroz desabafo contra o analfabetismo. A viola ressurge no final unindo-se ao rock.
10 – Cagaço
(Herbert Vianna/ Bi Ribeiro)
Esta fala da situação social no Brasil. Uma letra que narra surrealmente as dificuldades e desilusões do cidadão brasileiro comum e cita nominalmente o poeta Wally Salomão. A programação de bateria, baixo e teclados é caprichada junto à inconfundível sessão de metais e à guitarra que pontua frases de blues em alguns trechos. A voz de Herbert está no centro até chegar ao refrão e se dividir em duas, uma de cada lado.
11 – O Amor Dorme
(Herbert Vianna)
Esta é a mais radiofônica do disco. Uma poesia romântica sem chegar perto do clichê em momento algum. A beleza da melodia é regada por um clima de bossa nova com a inclusão de um violão com cordas de nylon. O produtor Phil Manzanera fez o solo de guitarra. O resultado final é mais do que agradável aos ouvidos.
12 – Go Back
(Sérgio Britto/ Torquato Neto/ versão: Martim Cardoso)
Faixa bônus. Voltados também para o mercado latino, os Paralamas gravam uma versão em espanhol desta original dos Titãs. A segunda parte foi mantida em português. Os vocais e a programação seguem o alto padrão do restante do álbum.
13 – Casi Um Segundo
(Herbert Vianna/ versão: Martim Cardoso)
A segunda faixa bônus também é cantada em espanhol. Uma versão para “Quase um Segundo”, uma das melhores composições de Herbert e gravada originalmente pelos Paralamas no álbum “Bora-Bora” (1988). O experiente músico Egberto Gismonti preparou um arranjo que levou Herbert às lágrimas.
Curiosidade: A capa de “Severino” é uma obra de Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) que passou 50 anos internado em um manicômio. Para ele, a loucura só poderia ser eliminada pela morte ou pela arte. Encontrou na arte a sua válvula de escape e deixou um legado importante para a cultura brasileira.
Textos: Adailton Lacerda
